LISTA DE AFAZERES

Toda manhã era rotina pra Alicia ouvir uma musica no rádio. Ajudava a despertar. Era a melhor vitamina contra sua falta de animo matinal, aquelas que todo mundo tem quando é comum querer desistir da promessa que seria mais um sem novidades, com pessoas comuns, problemas sempre a buscar solução.
O cheiro do café era o combustível, a injeção que falta pra que as outras ocasiões não afetassem sua programação, já que Alicia tinha um talento pra se perder nas anotações cerebrais. Era preciso fazer uso do velho bloco de notas, de pequenos lembretes ocasionais. Talvez essa mania peculiar tenha sido em conta do convívio com a avó durante seis meses; um período difícil, pois era a transição para sua vida adulta, e que culminou em outra mudança de comportamento: ir morar sozinha.
Foi assim que se perdeu em pensamentos ao tentar encontrar uma pequena lista feita na noite de ontem, enquanto tinha acabado de ouvir no radio uma propaganda de supermercado com a chamada ‘compre também pela internet’. E assim, mais uma vez, Alicia desistiu da humanidade. Saber que o contato com as pessoas estavam sendo banalizados por uma troca de serviço, em que não era valorizado o interesse em sentir a troca de sensações entre as pessoas, ou a intuição de seguir o pensamento por algo que só você tem o desejo de alcançar enquanto se satisfaz o prazer de tocar.
Onde mais iria encontrar pessoas conhecidas? Onde iria debater sobre a insatisfação de não colocarem  no produto a quantidade da gordura trans, já que Alicia era uma pessoa que cuidava da sua saúde, e também se preocupava se as pessoas estavam se informando? Taxa de açúcar, teor de gordura, precinho camarada. Nunca conseguiria entender aonde iria o valor dos seres humanos nessas questões sociais de conforto dos que correm contra o tempo, e não abre mão de evitar o contato com pessoas que só estão ali para proporcionar uma condição de bem estar para quem sabe como é escolher as coisas que vão proporcionar ao seu dia uma rotina ideal.
Ela acredita nesse tipo de pessoa que vê simplicidade em tudo, que sorri com os pequenos detalhes de uma troca de informações, os olhos que sorriem quando algo é agradável ao nosso consciente, quando os mesmos parecem se frustrar com acontecimentos inoportunos; na fala peculiar entre a sensibilidade e o senso critico das coisas que nem sempre vão acontecer de forma justa. O mundo realmente nem sempre é justo com todos, mas algumas pessoas sabem persistir no que há de melhor no ser humano, e Alicia acredita mais na sua intuição humanitária do que em sabedoria velada por gente que nunca venceu na vida.
E acredita que quem prefere esse tipo de encontro no seu dia a dia pode transformar o mundo em algo mais simples. Simples como deixar anotado as coisas que precisa buscar no supermercado.
Mas agora Alicia tinha que lembrar onde tinha deixado sua lista. Vai que aconteça de cair em contradição, até porque nem sempre estamos certos com nossos pensamentos.
Aproveite a oferta.

Daniel Ribeiro

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