Assim caminha (os sábados) da humanidade
Em um sábado de calmaria, existe uma rotina que seguimos inconscientemente, apesar de toda a necessidade de fazermos nossas atividades pessoais. Ainda existe, para tantos outros, possibilidades concretas, já que o homem se dignifica em seu trabalho, independente da sua religião. Se fosse o contrário não haveria as nossas alimentações básicas dessa manhã - tão monótona - ou não se poderia realizar os chamados passeios.
Seguindo a minha rotina de um sábado qualquer, não há muita
expectativa de acontecimentos reflexivos, e que, posto em seguimento, nada de
inspirador acontece. Os trabalhadores vão aos seus postos, os que estão de
folga vão realizar suas atividades (ou procrastinar para mais tarde). Dessa
realidade, ainda não encontrei uma concessão benéfica, e transformar em mais
produtivo meus sabáticos momentos de reflexão. Só entendo que a realidade do
mundo necessita do movimento financeiro, habilitado para ser o sustento de
muitos, em contrapartida, onde o descanso só vem ao final da vida.
Por sorte, tenho os sábados de reflexão, e, de quebra, aproveito
para dar auxílios domésticos na minha residência. Viver em cidade pequena te
proporciona uma espécie de livre-arbítrio, concedido por fazer o que se quer,
ou fazer o que te pedem. Nas manhãs de atividades livres, consigo fazer uma
leitura reflexiva, ou poder buscar um pouco de conhecimento. Às vezes, pode-se
ouvir um carro passando na rua, e, muita das vezes, existem os trabalhadores
ambulantes, mencionados como homenagem no parágrafo anterior.
Desde a infância, convivemos com personagens desse tipo aqui
na minha cidade, (mas não vou contar nada disso aqui, fica para uma próxima) e,
o costume trouxe diversas formas de compreender a necessidade de sobrevivência,
ou a procura do sustento familiar, muitas vezes parecendo como uma tradição
milenar, que transcorre pela humanidade, se concretizando como uma forma de
vivência de comunidade, e, para mim, uma das mais bonitas formas de gratidão.
Vou narrar o pequeno e singelo acontecimento deste sábado que
me trouxe para esta reflexão. Estava refletindo com uma leitura esporádica que
sempre me toma por curiosidade, quando toca a batida no portão. Houve espera da
minha parte, por não querer me desconcentrar da leitura, mas o chamado sonoro
foi novamente insistente. Se necessitava ser atendido, devo, então, ir ao
chamado.
Ao chegar ao portão, um rapaz da vizinhança com o semblante
humilde, conhecido da família, com um saco de vegetais na mão, sentencia: - Vim
trazer essa encomenda para sua mãe. Ao que indago o porquê, responde: - Por ela
ter nos ajudado na semana passada. Mamãe tinha doado uma pilha de roupas
usadas, e eles vieram nos retribuir. Agradeci a troca oferecida, com agradecimentos
e sorrisos.
Essas lições de troca são o desejo utópico de humanidade que
sobrevive, e nos dão certa esperança. Buscamos compreender, de certo modo, que
podemos simplificar, com trocas de favores, nossa vivência como seres humanos. Um
ato tão milenar e tão espiritualizado, cheio de fé e boa vontade, ainda sobrevive
em nossa sociedade, conferenciando para todos uma nova versão da música de
grande sucesso, pois se “assim caminha a humanidade”¹, percebemos que há outra
alternativa de vida para nosso futuro.
Que tanto preceito de favores nos formem, ainda, como seres
humanos para quem se desobriga a sentenciar que a vida se sustenta de pilares
econômicos? É permitido consentir que o status monetário das grandes massas sejam
a principal sustentação das vidas humanas, quando estabelecido que há valores
em cada ato de trabalho. Evidentemente, há uma evolução da humanidade, e uma
conscientização sobre viver do seu trabalho, mas essa prática milenar de trocas
de mantimentos é a principal sustentação para se permanecer consciente que a
humanidade seja cheia de esperança.
Mesmo nos nossos sábados de descanso, ou quando nosso dia precisa
de ser cheio de atividades, nossa ação começa com uma ato de se doar.
Daniel Ribeiro da Cruz, poeta e cronista. 28 de outubro de 2025.
1 A canção Assim caminha a humanidade é composta pelo artista Luis Maurício Pragana dos Santos (Lulu Santos). A frase transmite a ideia de que a humanidade avança aos poucos, com dificuldades e sem muita disposição, mas com um propósito de superar adversidades e seguir em frente.
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