POXA, O PLANO NÃO ERA FAZER ELA SE APAIXONAR.


Eu quis me apaixonar por ela.
Só porque todos tinham a admiração que eu não tinha. Eu tenho uma tendência boba de me encantar com quem nunca fez parte da minha vida. É idiota da minha parte, mas é o que sempre acontece.
Eu sabia que eu não tinha nenhuma chance de conquistar um coração tão aberto ao mundo, tão livre que chegava ao ponto de não perceber o mundo aos seus pés.
Eu quis me apaixonar por ela.
Só pra conhecer um pouquinho dessa liberdade em fazer as pessoas olharem a sua alma, e transformar o céu em um espaço para danças.
Entender porque todos falavam de tocar seu corpo como se fosse uma fonte de amor insaciável. Eu só queria conhecer esse lago pela superfície.
É tolo de minha parte querer se apaixonar por alguém, já que isso não é um método a ser forçado, ninguém coloca uma paixão no seu peito e tranca a sete chaves. A paixão simplesmente acontece sem percebermos; num gesto dos olhos, na silêncio das palavras, nos gostos e desgostos, nas aversões, nos desejos mútuos.
Apenas um momento ao seu lado, apenas uma conversa formal. Pra levar comigo aonde eu me lembrasse. Pra poder falar que eu tive a oportunidade de dizer como é bom lembrar de falar sobre as coisas da vida, que ainda não vivemos.
Mas poxa, não era pra ela se apaixonar?
Eu já tinha planejado pelo menos umas duas viagens imaginárias por ano. Só pra gente experimentar se envolver a custas do destino; onde o tempo nos levar sem perceber que ele pára quando estamos ignorando o sol se pôr, e nos escondendo quando nascer.
Agora mesmo, fico imaginando toda vez que ela sorrir quando apareço do nada, quando faço uma surpresa inesperada. Penso na possibilidade de estar subornando um apreço inexistente quando falo de como o dia pode ser melhor quando alguém sorri, quando te falam que você é uma pessoa incrível, esquecendo que são essas coisas que mexem com o coração da gente e fazendo brotar uma esperança que supostamente vai fazer alguém sofrer, já que tudo não deva passar de uma ilusão.
O plano não era fazer ela se apaixonar.
Até porque as nossas distinções de pensamentos se desencontram quando existe uma certa distância nas nossas pretensões para o futuro. É necessário fazer uma coligação de interesses, mas as nossas amizades distintas nos apartam do que pretendemos alcançar, e mesmo assim nós sabemos que um desejo mútuo embarca a cada gesto de solidariedade um com o outro.
Mas poxa, porque eu fiz ela se apaixonar?
Posso afirmar que essa posição de canalha me dá um certo desconforto, mas é provável que quem vai se sair dessa melhor é ela.
Eu não sei o que fazer se algum dia ela me disser sim.
Mas ela sabe muito bem para onde ir se acaso eu disser não.
Provavelmente ela está fazendo isso agora, enquanto estou em negação.
Faz parte da vida.

Daniel Ribeiro

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