Conversas esperançosas
Saio às ruas para saber um pouco do que acontece na
humanidade. Reconheço que tenho preferencias caseiras, e muitas vezes, aceito
que há uma falha de minha parte em relação à socialização. Conversas profundas
e com teor intelectual tem sua raridade, e sair para as ruas apenas para
reclamar da vida não é algo que me agrada. Essas conversas que enriquecem o ser
humano ajudam a proporcionar uma coisa que acredito que está falha há muito
tempo: a fé na humanidade.
Essa palavra que move montanhas, ouve nas entrelinhas, acalma
os ventos, de duas letras: fé; capaz de fornecer diálogos esperançosos, e ocupa
uma parte de quem quer familiarizar com a parte humana do próximo. Veja esse
fato que ocorreu quando estava sentado na praça, pensando nas possibilidades da
vida, e me aparece um sujeito; dizia-se um homem de fé, com uma maleta de couro
e, educadamente, perguntou se o tempo para ouvir uma palavra do livro sagrado
estava disponível.
Não tenho distinção de pessoas e, às vezes, a simpatia pode
ser um artifício para quem quer um pouco de atenção. Faz algum tempo que não
sou praticante de religião, mas me encanta a palavra ‘ecumenismo’, que me faz
simpatizar com todas as manifestações religiosas. Eu sou bom ouvinte, e pontuo
palavras na conversa quando necessário, mas quando o interlocutor insiste em
forçar um tópico que não concordo, sou favorável a interromper a fala e pedir
licença para me retirar.
A palavra para mim é um ato sagrado, já que a utilizo para a
escrita; e reconheço a minha falta de habilidade para o discurso. O ato da conversa
feito pelo homem de fé aborda não só a palavra sagrada, mas a sua relação com
os fatos que acontecem no mundo. Esse tipo de discussão me agrada. Aprendi a
discernir do interlocutor o que tenta me dissuadir em contraponto de minhas
abjeções, colocar meu discernimento à frente de qualquer entrelinha enviesada.
Talvez, por isso, tenho saído cada vez menos da minha casa. As pessoas não mais
deixam livres as conversas, tudo é estrito e pontual.
A conversa com o homem de fé termina, e uma sensação de
pertencimento a humanidade reverbera quando eu já não tinha mais esperança. Esse
preceito de acreditar em algo maior pode ser diferente em algumas pessoas, apesar
de que para minha fé, esse conceito é universal. Em minha utopia, todas as
religiões dividem o mesmo templo, a mesma sintonia, e o mesmo propósito.
Imagino a comunhão de todas as fés, e o respeito de cada uma delas.
Que toda força do universo reconheça seu Axé, onde em
cada espírito possa manifestar seu Om Shanti, e receba com seu dom o
desejo de proclamar Namastê a todos que o circundam, e que em cada canto
possamos invocar com esperançosa harmonia Salam Alaikum, e que cada ser
humano tenha em si a manifestação de um Shalom. Assim seja. Ahô.
Daniel Ribeiro da Cruz, poeta e cronista.


Comentários
Postar um comentário