Entre sibipirunas e cigarras.
Quando me avisam que a idade não me está favorável, sinalizo
um sorriso tímido, tentando ser sincero. Aprendi a não abusar da insensatez, e
permaneço com o olhar da infância. Ando pelas ruas da minha pequena cidade, e recordo
de coisas que podia ter sido melhor vividas, - mesmo que bem vividas, a meu
modo – e faço um exercício de memória na minha mente nebulosa.
A constante timidez na infância, ainda recorrente na vida
adulta, permanece como uma ferramenta de escape para a maioria das
adversidades da vida. Entre as coisas que procuro traduzir, o olhar sobre as
simplicidades do tempo são suportes da memória, consolidando o entendimento do
que quero transmitir. Saio pelas ruas, olhando o que mudou, sempre com o olhar
do que vivi.
As ruas já asfaltadas da minha cidade, que me sustentaram no
equilíbrio da bicicleta, buscando encontrar tesouros imaginários, que nem assim
valiam tanto, mas a aventura valia a pena. Morar em cidade pequena precisa ser
inventivo, quando a timidez anda como companheira. Você constroi fortalezas, se
unifica com poucos aliados, e ainda é preciso ter um pouco de lucidez, para não
ser chamado louco, por quem não tem a capacidade de criar histórias.
Eu não gosto de envolver ninguém na loucura que é entender
meus pensamentos, mas fica a critério, se quiser fazer parte da loucura junto
comigo. Quantas vezes deixamos a imaginação se transmitir de forma aleatória, entre
o que se está vendo e o que se pode viver; são diversidades da experiência da
vida, em sonhos e desejos, entre momentos que precisamos ter a inocência em
evidência, ao mesmo tempo em que nosso ‘adultecer’ (aprendi muito lendo
Guimarães Rosa) vai solidificando o pavimento da sua consciência mundana.
Lembrar dos tempos da infância, correndo pelas ruas, com a bicicleta
que seus pais deram de Natal, a volatilidade das rodas sendo exploradas para
sentir o vento, e vencer a dinâmica física do asfalto, na tentativa de voar
pelo mínimo centímetro. As ruas da minha cidade têm orgulho de cada criança que
ela acolheu, nesse aprendizado de buscar um sentido para enfrentar o mundo;
mesmo na sua pequenez, o significado tem muito para ser louvado.
Dessas lembranças de exploração da vida, muitas memórias ainda
são como fotografias em que o cérebro recria na sua sala de projeção. A calçada
da praça construída de paralelepípedos, poder correr no entorno da igreja, toda
cercada de sibipirunas. E quando em certa época, depois da floração, época tão
esperada; poder andar pela mesma calçada, pisando nas vagens secas da árvore, a
se divertir com o som ‘tec-tec-tec’.
Sinto falta dos sinais comuns que podíamos viver nesta época. Ouvir
o zumbido das cigarras era um bom sinal para quem viveu por aqui por muito
tempo, e compartilhava saberes tradicionais. Época das tão esperadas chuvas profetizadas
por tantos familiares mais velhos, aprendendo a entender o tempo de tudo; saber
que as cigarras tinham um propósito da natureza, mesmo o incômodo para quem
passava por de baixo das sibipirunas.
A corrida para casa na volta da escola tem parte nessa
lembrança de um lugar conforto. Um caminho sempre sozinho, era mais sereno no
mês de setembro, em diante. A criança que vive em mim ainda sente saudades. E, às
vezes, a saudade cura algumas feridas cicatrizadas, como muitas vezes fomos
ensinados. Explicar o que sentimos é fácil, com o tempo o coração aceita esse
sentimento e se apega; o que faz perder o encanto é se desencontrar da
capacidade de mantê-lo vivo.
Como ainda sou daqueles em que a geração tem o costume de
escutar os mais velhos, permaneço sentindo a essência do que vivemos no
passado. Pouco importa o futuro e a evolução. Muitas coisas da cidade da minha
infância mudaram de significado; hoje tudo tem mais a ver com espaços
recreativos, nada mais desse lugar se comporta como inventivo. Talvez seja apenas
egoísmo, mas eu preciso acolher quem eu fui na infância.
Todos os dias, ando pelas ruas da praça, olhando para cima,
imaginando as frondosas sibipirunas floridas esperando o tempo passar, correndo
para pisar nas vagens secas, divertindo-me com o ‘tec-tec’, e também, escutar o
canto das cigarras, e fugir dos seus voos rasantes, e se irritar com seus
esguichos a cair na cabeça; e ainda ver os meninos que caçavam-nas por
esportes, mesmo que eu não praticasse, por me comprazer com os animais, eram
certezas que algo seria bom no futuro, e que sendo algo mínimo, seria mais que
uma lembrança.
Daniel Ribeiro da Cruz, é escritor deste blog. Escreve desde jovem, e procura praticar com frequência. Já tem dois livros de poesias publicados: Invisibilidade, de 2022 e Necessidades Básicas, de 2026.


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