Resenha de Um Centauro no Jardim.
Como surpreender os leitores do século 20 com um livro? Talvez se utilizar um debate sociológico, cheio de metáforas e incluir um discurso histórico, onde misturo mitologia com atualidade? Essa proposta parece ser uma receita de fracasso, se baseada nos inícios dos anos 80, com resquícios de uma política malsucedida no país, mas é nesse contexto de fragilidade da humanidade que Moacyr Scliar traz em seu livro O centauro no jardim, publicado nos anos de 1980.
O cerne da obra debate sobre a vida de Guedali, um homem
que nasceu com uma peculiaridade curiosa: ele tem o corpo de um centauro. Sua
família morava no Rio Grande do Sul e tinha tradição judaica, fugindo da guerra
na Europa, onde foram perseguidos. Enquanto crescia, Guedali passou a ter
muitas adversidades, mas tinha o pensamento livre. Até que conheceu, perto da
região que moravam, uma mulher que também tinha nascido como centauro, e passam
a viver um romance. A partir desse acontecimento, a sua vida se enche de
reflexões, passando pelos traumas de infância e adolescência, sendo até
possível passar por uma operação, com um médico renomado em Marrocos, que pode
mudar sua forma para humano.
Repleto de questões sobre o comportamento humano, o enredo
não se trata apenas de um ser diferente (e mitológico) estar inserido na
sociedade. O que reflete nas discussões apresentada pelo autor se baseia em
como o homem precisa se decidir sobre as questões da vida, independente da sua
posição social, ou de entender a sua diferença na sociedade. Na obra, Scliar
aponta que as nossas decisões são inerentes ao que acontece com a gente, e isso
amplia a discussão quando ele deixa claro que não importa se você é um homem,
ou um centauro.
Sobre esse tema, podemos nos sensibilizar com a visão mitológica
da personagem, na qual temos diversas questões: como se vive com uma deficiência?
Porque não posso ter amizades normais? Será que posso amar uma mulher, mesmo
ela sabendo da minha anormalidade? As respostas são encontradas com a
convivência entre a família, com as decisões que tomamos frente a adversidade, até
com fugas de realidades, para se viver longe daquele lugar que não nos pertence
mais.
Guedali pode até ter as caraterísticas de um ser
mitológico, mas o meio humano em que nasce o coloca em questões tão humanas que
muitas vezes o mitológico e o real se encontram, se perpassam e evidencia sermos,
muitas vezes, humanos capazes de negligenciar nossa convivência e nossa harmonia.
O outro sempre nos verá com capacidades de decidir em favor de ambições fora da
realidade, alimentando o ego, destruindo um sonho, com resquícios de falsa
humanidade, e nisso o autor promove com tanta veracidade que a leitura se torna
muitas vezes incômoda e até nos provoca desconforto, mas o espelho da realidade
está ali, no limiar das linhas escritas, e na nossa experiência humana.
Assim, ao publicar este romance no início dos anos 80,
Moacyr Scliar provoca-nos a compreender uma perspectiva do mundo naquela época.
Este tema que Scliar apresenta é uma síntese da banalidade humana, construída
como forma de narrar uma trajetória, ao mesmo tempo, fantástica e realista, e tem como simples finalidade deixar à vista uma
intensa busca do ser humano pela sua verdadeira natureza, e o impulso heroico desta
condição para evidenciar a luta do sujeito moderno contra a alienação; revelando
que não importam suas decisões, a ficção pode transpassar para a realidade,
mesmo num romance escrito no século XX, sendo ele capaz de transcorrer através
da contemporaneidade.
O centauro no jardim/ Moacyr Scliar. - 10° edicão. - São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
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