Abre-alas! para o povo brasileiro
Esperar por alguma coisa deve ser um ato de paciência. Mas
isso não funciona com os brasileiros. Principalmente em se tratando de festas;
e não só se tratando de uma simples reunião, aniversário, casamentos, qualquer
celebração se torna um motivo de festa. Parece um carnaval.
E, afinal, vem chegando o carnaval. A festa mais esperada.
Sobre a influência de celebrações vindas de tradições
europeias, como a portuguesa e a italiana, perpassando pela musicalidade do
povo africano que foi trazido para nossas terras, como desde sempre, essa
mistura de expressividade fez dos brasileiros um povo aficionado por
festividade.
A caracterização do povo que fala da sua força, da sua
transparência, se torna resiliente em diversas situações, e para tal
demonstração, não dispensa uma festividade na qual extravase o que viveu, o que
não tem vivido, tudo orquestrado pela espera de uma festa.
Está enganado quem diz que o brasileiro, com essa mistura de
raças, povos, culturas e identificação, personifica a verdadeira caracterização
do significado da festividade do carnaval. Esqueçam os significados e
significantes, se veio do latim, ou se veio de uma religiosidade. A premissa
aqui é da alma, de como nosso povo exterioriza quando o assunto é a festa que
promove a alegria.
Deixar-se transparecer num artifício de personificação dos
nossos sentidos e vivências, mostrando jovialidade e paixão pela vida, sem
temer ser comparado com qualquer arremedo de disparidades ou indiferenças com
nossas situações sociais. A carnavalização, para o brasileiro, não é uma mera
metáfora, pelo contrário, se prontifica a misturar todo o contexto em que foi
formado, mostrando que somos pura fantasia quando se trata de mostrar a vida
como ela é.
Por certo, compreendemos que sempre haverá motivos para
deixarmos de lado nossas preocupações. Mas nunca haverá disfarces na intenção
de um povo, que cultua certas tradições, numa concepção que valoriza o ato de
celebrar. O brasileiro, em época de carnaval, sabe ‘sambar’ na avenida através
da artimanha de sobrevivência, e pondera a sua situação social em que tenciona
mostrar, através de uma vestimenta particular, sua fuga para uma fantasia que
dispensa a realidade, que no dia-a-dia mostra-se sempre aparentar mais um
enredo para seu desfile.
Por isso, abram alas, o povo brasileiro pede passagem, para
mostrar que tem muitos estandartes e porta-bandeiras a erguer; começando com
uma marchinha para compreender o ritmo, e seguindo em ritmo frenético para elevar
seu espírito de resiliência e força de vontade. Convoque em seu espírito,
Chiquinha Gonzaga1, Dodô e Osmar2. Deixe-se contagiar pela energia do frevo3, maracatu4
e afoxé5.
Prepare sua marchinha, seu grito de carnaval. Estamos na festa
menos esperada do ano. Porque durante todo ano, o carnaval está na vida dos
brasileiros.
Daniel Ribeiro da Cruz, poeta e cronista.
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