ANALISANDO O POEMA "NA RIBEIRA DESTE RIO" DE FERNANDO PESSOA
Fernando
Pessoa
Na ribeira deste rio
Na ribeira
deste rio
Ou na
ribeira daquele
Passam meus
dias a fio.
Nada me
impede, me impele,
Me dá calor
ou dá frio.
Vou vendo o
que o rio faz
Quando o
rio não faz nada.
Vejo os
rastros que ele traz,
Numa
sequência arrastada,
Do que
ficou para trás.
Vou vendo e
vou meditando,
Não bem no
rio que passa
Mas só no
que estou pensando,
Porque o
bem dele é que faça
Eu não ver
que vai passando.
Vou na
ribeira do rio
Que está
aqui ou ali,
E do seu
curso me fio,
Porque, se
o vi ou não vi.
Ele passa e eu confio.
Análise:
Apresentação
Nos estudos da poesia, ressaltamos, de maneira indiscutível,
o aspecto da importância de Fernando Pessoa para a literatura mundial. Durante
o período que compôs seus poemas, Pessoa além de poeta, escreveu textos filosóficos
e ensaísticos, dramaturgo, entre tantos trabalhos para a escrita; inicialmente
na literatura portuguesa, e depois para a literatura mundial. Falaremos, então,
de sua poesia ao analisar um de seus poemas.
É importante ponderar que Fernando Pessoa fez parte da
tradição lírica da Literatura Portuguesa, não só com os famosos heterônimos Alberto
Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis com que ficou conhecido, mas também os
poemas da sua obra Cancioneiro. Ao compor esses poemas, ele definiu como
canção “todo aquele poema que contém emoção bastante para que pareça ser feito
para se cantar”. (SEABRA, 1960. p. 146)
Aproximação do verso e da música
Segundo Seabra (1960), em seu estudo Fernando Pessoa ou o poetodrama, podemos citar o seguinte:
Esta música emerge de uma estrutura rítmica
que, partindo das formas métricas mais tradicionais (como o verso hexassilábico
e heptassilábico, particularmente maleáveis na poesia portuguesa, em razão da
sua acentuação incerta) e dos sistemas estróficos mais simples ( a quadra, a
quintilha e a sextilha rimadas), neles introduz uma ductilidade que incorpora
discretamente todas as conquistas da poesia simbolista e modernista (p.147).
Podemos entender que a composição dos poemas realizadas por
Pessoa segue o estilo de uma canção, e por isso, os versos e as rimas são importantes,
destacando-se o ritmo. Ainda segundo Seabra (1960), podemos dizer que:
A música, enquanto metáfora do significado e do
significante, da emoção e das palavras, aparece como a forma privilegiada de
expressão, ou melhor, de abordagem da margem de inefável que há entre a
experiência vivida e a experiência poética (p.149).
E [...]
Na medida em que a continuidade do movimento
rítmico absorve, no plano do significante, os elementos metafóricos do
significado, transpondo-os semanticamente, através de uma contiguidade
insensível, de uma parte para outra estrofe, pode-se dizer que os acordes da
“música” verbal se harmonizam com os da “música” das ideias e das emoções[...]
numa alternativa de sentido e numa alternância de ritmo, reproduzindo a
flutuação da abertura do poema, é um exemplo de ajustamento perfeito da “forma
da expressão” e da “forma de conteúdo” (p.151).
Analisando o poema
Quanto à interpretação do poema conhecido como “Na ribeira
deste rio”, percebe-se que há elementos da natureza que fazem o leitor se
desprender de si. Encontra-se, nesse tipo de situação, um pensamento em que
nossos sentidos procuram-se desprender da realidade, refletindo os
acontecimentos ao redor. Na poesia de Fernado Pessoa, é possível ser
identificado um estado de liberdade, um estado de plenitude, pode identificar
como uma das ideologias de pensamento encontradas no Epicurismo.
“Nada me impede, me impele”
No primeiro verso, na terceira estrofe já é possível
encontrar a vontade do poeta em sentir liberdade quanto ao visualizar o rio
diante de si, e, nessa sensação poder estar em seu estado pleno, diante da
ribeira, ou diante da margem do rio, em que o poeta reflete quando compõe os
versos. No Epicurismo, há que se considerar dois estados de espírito: um,
relacionado as causas duradouras, que encantam a alma; outro, relacionada à
efemeridade e imediatismo, que são a causa da dor e sofrimento. Para se
encontrar em estado de felicidade da alma, o filósofo ensinava que deveríamos
desfrutar do primeiro e ignorar completamente o segundo.
“Vejo os
rastros que ele traz/ numa sequência arrastada/ do que ficou para trás”
Mais uma vez, o poeta nos dá o sentido de desprendimento
nessa segunda estrofe. Tudo que foi observado pelo rio, e tudo o que ele tem de
história, tem um acontecimento, e um fato. E, enquanto transcorre o seu curso,
nova forma de contar outras histórias devem aparecer, já que os rastros do seu
curso, enquanto corre a água, ficam para trás. E a água (ou os novos
acontecimentos) devem continuar acontecendo.
“Porque o bem dele é que faça/ Eu não ver o que
vai passando.”
Pessoa em sua proposta de pensamento filosófico nos dá mais
uma vez a dimensão de que o epicurismo é forte em seus versos. Aqui é evidente
que podemos entender que existem formas de alcançar o bem, indiretamente através
da mensagem que o rio passa; nesse processo de utilizar a sabedoria, desligando-se
dos fatos passados, é possível entender como a fluidez do rio possa ser um
processo da vida, em que a água passa, e as coisas por elas marcadas permanecem,
permitindo-se sentir que nada dura para sempre.
“E do seu curso me fio/ Porque,
se o vi ou não vi/ Ele passa e eu confio.”
Nesses versos temos, mais uma vez, a certeza de que
o poeta tem na filosofia que apresenta a sabedoria necessária para entender o quanto
do rio ele compreende para sua confiança, entendendo quanto dessa fluidez de
compreensão da vida, em que as marcas do rio ficam, mas o acontecer dos fatos,
como o rio, não é um pensamento difícil de se alcançar. Como a correnteza que
passa em seu curso é algo natural, sabendo que existe confiança no curso do
rio; não podemos nos preocupar se o rio vai trazer algo bom ou ruim, apenas que
tudo que deva acontecer deve ser fácil de superar.
Conclusão
Nas composições dos poemas do Cancioneiro,
Pessoa nos mostra sua particularidade das palavras, basicamente descrevendo uma
certa liberdade buscando na sabedoria os versos para incorporar a musicalidade,
sem particularmente fazer uma canção sobre os versos compostos. Na intenção de
entender a filosofia aplicada sobre o pensamento do Epicurismo, desprende-se da
vida ao seu redor, e parte para a reflexão do sentir seus versos, na busca da
vida em si, na qual todos deveriam ter.
Enquanto música e filosofia, Pessoa traz o olhar para o rio que corre, entre tantos que existem em Portugal. Não há como refletir que todas as margens de um rio trazem uma reflexão, ou traz um pensamento que nos faça olhar os acontecimentos ao redor do rio e imaginar que a beleza da vida deve ter seus obstáculos, mas, como o curso da água, é importante seguir em frente.
Referências:
Arquivo Pessoa- site http://arquivopessoa.net/textos/2217
Pesquisado em 01/06/2024.
SEABRA, José Augusto. Fernado Pessoa ou o poetodrama. 1960.
Editora Pespectiva.
Capítulo XIV: A filosofia de Epicuro. Site: http://jusbrasil.com.br/artigos
Pesquisado em 02/06/2024
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